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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lembranças

Os azulejos estão no mesmo lugar, assim como o arranjo de flor artificial na mesa de centro.
Tudo permaneceu imóvel na velha casa durante anos, mas o tom não é o mesmo e nem o cheiro; o pó é visível e incômodo, cobre os objetos. A prataria embaçada nem de longe são as mesmas daquele tempo. Os livros na estante comidos por traças, já não podem ser lidos.
Eu só posso convir que até os objetos envelhecem. Lá fora o mato cresceu, tantas plantas murcharam, outras novas nasceram. O balanço em que eu voava está quebrado, a velha tabela de basquete enferrujada, não há bolas nem vidraças, nem brincadeira de taco. Só há lembranças, um passado enfeitado como bolo de aniversário.

domingo, 19 de junho de 2011

Estilhaços


Andei tentando juntar os cacos estilhaçados de mim
Alguns pedaços quebrados por tanto cair
De passo em passo, e de caco em caco tento me recompor
De vazios e outros estragos, feridas e dor
Sinto-me como uma bala perdida e parada estou
Perco-me de tudo que vivi, ou nada restou
Desconcerto desordenado
Lembranças amargas, mas ainda tento
Impaciência, como é difícil livrar-se dos remendos
Se é falta ou excesso, é algo que nem sei dizer
Talvez amanhã, haverá novas páginas, que haverei de escrever

segunda-feira, 13 de junho de 2011

123º aniversário de Fernando Pessoa


O Andaime


O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha 's'prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças -
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.


Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888Lisboa, 30 de Novembro de 1935)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Aquele fio desencapado

Sorria;
Bebia sua cerveja, como se fosse doce
Suspirava;
Festejava a vida como um carnaval
Divertia-se;
Ouvia qualquer que fosse a prosa
Alegrava-se;
Estava tudo nos conformes

Se fosse dia;
O sol lhe reverenciaria
Se fosse noite;
As estrelas brilhariam
Se fosse maio;
A brisa lhe sopraria no rosto
Se fosse acaso;
Nada planejaria

A poesia;
Bem contada seria
As piadas;
Engraçadas soariam
Aquele cadarço;
Ela por vezes amarraria

E aquele último gole do copo trincado?
...

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