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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Verdade, Mentira

 Fernando Pessoa
(Alberto Caeiro)

Verdade, mentira, certeza, incerteza...
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho
Verdade mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.

PESSOA, Fernando. Ficções do Interlúdio I: Poemas Completos de Alberto Caeiro. Ed. Cia José de Alencar, 1975.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Você aqui


Quero você
Deixa eu tocar tua pele
Deixa que eu te sinta
Quero tanto teu corpo junto ao meu
Minhas lágrimas junto as suas lágrimas
Meu cochicho no teu ouvido
Minha voz, teu entender
Nosso silêncio
Abraço, amor maior
Envolva-me
Olha-me nos olhos
Eu retribuo
Quanto amor
Caminhadas na praia
Fios de cabelo no ar
Dançamos
Quanta felicidade
Você fala meu nome
Recita lindas palavras
E eu só quero assim você, aqui!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A ausência da cor



Parei de sonhar colorido demais, ofuscava minha visão. Tive que me acostumar com tons opacos que misturavam tons cinzas e fracos. O verde fluorescente foi trocado pelo musgo. Enxerguei tudo craquelado e irreparável. O sol foi trocado por um céu completamente cinza e ameaçado por uma grande tempestade. Andei pensando em consertar os meus cacos quebrados, mas as peças faltosas continuavam em falta no final. Muito preto e branco, a minha vida perdeu a cor que me era essencial e fundamental. Meus sonhos foram diretamente prejudicados e alterados. Resolvi pintar objetos com cores alegres, tentar mudar a minha situação, mas este não é o problema, o colorido da minha vida era só a maneira que eu antes enxergava, e por mais forte que uma tinta possa parecer ela não possui poder nenhum sobre o que me ocorreu. Senti vontade de cortar meus pulsos pra manchar esta monotonia, tenho certeza que esta é a minha última alternativa e neste momento a única coisa que eu posso fazer. Mas assim como a cor, toda a coragem e revolta também se foram. Minha força é menor a cada dia que amanhece sem sol, e a cada noite sem luar, o escuro do meu quarto é tudo que eu tenho, e é assim que ele permanece dia após dia, independente de que hora seja. Na verdade não tem a menor importância saber o que marca o relógio, porque tudo fica exatamente igual. Esta daltônica experiência se transforma em cegueira absoluta. Um milhão de anos, horas atrás, vidas passadas, eternidade, me perdi num transe que não sei se haverá fim. Espaços ou vácuos, multidões espalhadas num mundo que eu mal consigo imaginar. E eu só quero sonhar, sentindo o sol me tocar no rosto, só quero ver o pigmento de uma folha caindo de uma árvore alta.
Eu começo a chorar, e choro tanto que penso que nunca mais irei parar, choro por horas, dias, talvez. Eu posso banhar o mundo inteiro com minhas lágrimas, elas demoraram tanto para tomarem forma que mais parece um rio que corre sem pausas. Eu transbordo dentro de mim, eu posso sentir, e num relance em meio a soluços vejo uma fresta de luz na janela e sei que posso sorrir.
Hoje aproveitei o sol e deixei minha alma estendida para secar, tirar o cheiro do mofo e prepará-la para uma nova fase que não tarda a chegar.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

É certo que duvido

Xeque-mate, 1949 - Maria Helena Vieira da Silva

Se há algo nesse mundo que eu tenho certeza, é que eu não tenho certeza de muita coisa. Minhas certezas são como quase certezas, são o meio caminho entre o que eu duvido realmente e o que eu quase acredito por completo, são apenas dúvidas que se tornaram um pouco mais confiantes e imunes as descrenças e acusações. A certeza é algo que eu certamente tenho grande dificuldade em entender e explicar, é algo incomparável que quando você a tem, não resta alternativas. A certeza vai ao encontro da dúvida, ou é totalmente contrária. Se a dúvida impulsionou o mundo, foi na certeza que as respostas foram encontradas. As dúvidas são os espaços dos quebra-cabeças que não se completaram ainda, são meus devaneios, minhas buscas por soluções que estão longe de procurar explicações concretas e absolutas daquilo que não aceito ou não compreendo.
Porém não se prova nada sem certeza, ela é o trabalho cumprido, o xeque-mate no xadrez, é quando você descobre que a peça que faltava no jogo precisava ser encaixada no exato lugar que você descobriu quando a obteve. Opostas, contrárias, incompreensíveis ou exatas, sempre haverá dúvidas das quais as certezas substituirá, ou não.

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