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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Cartas



Mantinha suas cartas salvas em “.doc”, e mudava o destinatário para envio. No remetente apenas um coração.
E o manuseio com luvas de látex. 
Duvidava que alguém se importasse, ou por ventura apreciasse as palavras bobas, de uma jovem estúpida.

Guardava em si uma vontade imensa de esperar escondida, para ver a reação de quem recebia seus escritos. Mas a tamanha timidez, e segurança que o anonimato lhe proporcionava não a permitiam arriscar-se ser descoberta.

Muita discrição na hora de ir ao correio. Capricho e delicadeza no preparo dos envelopes. Seu pequeno prazer diário. Seu mundo paralelo e intocável.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Amanhãs


E mais uma vez o mundo te põe à prova.
Gritar, correr, se revoltar, ou simplesmente silenciar. Deixar algumas lágrimas caírem sem controle...

Que as noites sejam refúgio quando houver sono. 
Ou pensar mil coisas até o amanhecer.

E se eu me achar burra, e se eu me enxergar fraca e tola por não me rebelar.
Só quero que haja amanhãs. Que faça sol, e que cada pôr leve consigo, um pouco do mal que há em mim.
Parque do Carmo


Parque do Carmo


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Apartamento 22 ou morar num abraço

O mundo girando na cabeça daquele cara de jaqueta azul, dançando músicas alternativas sob efeito alcoólico. Seu colarinho evidenciando um cheiro de uísque, misturado com Marlboro de filtro vermelho e outras bebidas baratas.
Pra ele aquela era mais uma noite em que tentava não ser um solitário qualquer dentro de um apartamento qualquer de número 22.
Seria mais uma noite em que ele chegaria numa mulher não muito bonita e nem muito feia, com a intenção de levá-la pra casa pra acordar na manhã seguinte ao seu lado e apreciá-la dormindo como se fosse sua namorada.
Só contemplá-la por 5 minutos até então ela sentir que está sendo observada e acordar assustada como de um de um sonho ruim. A mesma cena, semanas após semanas, e a cada vez mais um gosto descartável em seu paladar.
Ele procurava uma mulher com a qual pudesse repetir a cena da manhã, e não assustá-la. Procurava algum detalhe que o fizesse reconhecê-la, talvez seu cheiro, um perfume de flor de lótus, um cílio caído no rosto que ele então iria retirar olhando no fundo de seus olhos. 
E dela, ele queria um abraço no qual pudesse morar.

E enquanto bebia mais um gole, observando a garrafa de Jack ainda pela metade, quando ainda conseguia pensar e andar sem trombar, ele apenas desejou: que se algum dia encontrasse a mulher de seus sonhos, que ela o reconhecesse. Que aquele tênis All Star branco sujo de vinho de um cara mais tropeçando no próprio cadarço do que dançando; eram apenas os detalhes que a fariam perceber, que ele era um pobre solitário a procura de um amor em lugares incertos. E se não fosse pedir muito, que ela não lhe passasse o número errado e nem o enxergasse como um bêbado qualquer, numa noite qualquer na Rua Augusta.

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